Pierre Verger, o Fatumbi

By  | 15/02/2011 | Filed under: Fotografia

Pierre Édouard Léopold Verger, nascido em Paris em novembro de 1902, pertenceu a uma família bastante tradicional cuja descendência remonta ao ancestral Lucas Wolf. Durante sua juventude, cansado de sua condição burguesa e quase sempre discordando dos valores que vigoravam nesse ambiente, Verger acabou por aproximar-se de pessoas rotuladas como “indesejáveis” segundo os critérios de sua família. Acompanhado dessas pessoas, ele provocava a polícia enquanto dirigia seu belo e caro carro esporte pela Paris de seu tempo.

Anos depois, Verger uniu-se a outro grupo, desta vez um grupo de artistas que procurava viver de forma bastante livre e pouco convencional para os padrões da época. Mesmo discordando dos valores de sua família, Verger viveu de acordo com eles enquanto sua mãe foi viva. Ele era extremamente devotado a ela, e não quis chocá-la vivendo de forma que ela pudesse reprová-lo. Foi após o falecimento da mãe que Verger rompeu com o  passado e com seu meio.

O ano de 1932 foi um ano decisivo na vida de Verger, ele aprendeu a fotografar com o amigo Pierre Boucher e descobriu a sua paixão por viajar.  Foi viver no Taiti, e a partir daí foram quase quatorze anos consecutivos de viagens ao redor do mundo. Suas viagens incluíram percursos feitos a pé, de bicicleta, de caminhão e de navio, por entre rotas que compreenderam lugares extremos e fascinantes como o Caribe, Nova York, Argélia, Polinésia Francesa, Xangai, Rússia, Lago Titiaca e Mato Grosso. Verger sobrevivia exclusivamente de suas fotografias, negociando-as com jornais, agências e centros de pesquisa. Chegou a fotografar para algumas empresas e a trocar seus serviços por transporte.

Paris acabou por transformar-se em uma base, onde Verger fazia contatos para novas viagens e revia seus amigos. Ele estava sempre de partida, sempre disposto a ver o mundo e a seguir em novas direções.

Em 1946 o fotógrafo desembarcou na Bahia. Enquanto a Europa vivia o pós-guerra, Verger encontrou em Salvador uma tranqüilidade que o seduziu. Envolto pela hospitalidade e a riqueza cultural que encontrou na cidade, ele acabou por ficar. Verger gostava de lugares simples, da companhia do povo, de viver a cidade. Os negros, presentes por todo o lugar, acabaram por prender sua atenção. Além de fotografá-los, Verger procurou conhecer suas vidas e costumes com detalhes, e ao conhecer o candomblé, ele acreditou ter encontrado a chave para a vitalidade do povo baiano. Tornou-se assim um estudioso da cultura dos orixás, o que acabou por lhe render uma bolsa de estudos para que fosse pesquisar estes rituais na África, país para onde partiu em 1948.

Em 1953, Verger passou por uma cerimônia de renascimento na qual recebeu o nome “Fatumbi”, que significa “nascido de Ifá”. A grande intimidade que Verger desenvolveu com essa religião facilitou seu contato com os sacerdotes iorubas, que acabaram por iniciá-lo como um babalawo – cuja função é iniciar outros babalawos e também preservar e transmitir os segredos e conhecimentos do culto de Ifá.

Verger nunca deixou de viajar, o que tornou uma espécie de mensageiro entre a Bahia e os povos iorubas na África. A história, a religião e os costumes deste povo passaram a ser os temas centrais de suas pesquisas e de sua obra. Verger visitou muitas universidades como pesquisador e colaborador, e acabou por transformar suas pesquisas em artigos e livros.

Em 1966, com a sua tese sobre o tráfico de escravos entre o Golfo de Benin e a Bahia durante os séculos XVII e XIX, Verger obteve o título de doutor pela Sorbonne.

Em 1974 Verger passou a integrar o corpo docente da UFBA. No final dos anos 70 ele parou de fotografar e fez suas últimas viagens à África, passando então a atuar na criação do Museu Afro Brasileiro inaugurado em 1982.

Em seus últimos anos de vida, Verger mostrou grande preocupação em relação à propagação de sua obra. Em 1988 ele criou a Fundação Pierre Verger (FPV), na qual era doador, mantenedor e presidente, transformando a sua própria casa em centro de pesquisa. Verger faleceu em fevereiro de 1966, deixando à FPV a responsabilidade de prosseguir com o seu trabalho.

Fontes: Portal Literal – A odisséia de Verger , Fundação Pierre Verger


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